segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Na tua pele toda a terra treme




Na tua pele toda a terra treme
alguém fala com Deus alguém flutua
há um corpo a navegar e um anjo ao leme.

Das tuas coxas pode ver-se a Lua

contigo o mar ondula e o vento geme
e há um espírito a nascer de seres tão nua...




Poema de Manuel Alegre
Fotografia de Tahir Soylu

sábado, 27 de outubro de 2012

Ondas

Deixo-me embalar pela música.
Fecho os olhos e sinto
o teu rosto mergulhar nas ondas do meu
cabelo.

As tuas mãos como plumas
percorrendo meu corpo.
Encostas-me à janela
e pressionas o teu corpo no meu.

Sinto uma volúpia quente
subir e fundir-se em mim.
Uma a uma, as peças vão desaparecendo
e eu estou ali,
nua, faminta, com as ondas
do meu corpo a chamarem-te …

E tu vens, qual trovão em dias de
tempestade.
Para lá da janela, nada mais existe.
Somos nós, um só corpo
possuídos pelo mesmo desejo:
Amar …


Poema de Otília Martel
Fotografia de Fotolik

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Guantanamera

Quero dançar contigo
Uma rumba no salão
Quero escolher o vestido
Sentir-te na minha mão




Guantanamera
Guajira Guantanamera
Guantanamera
Guajira Guantanamera
Guantanamera
Guajira Guantanamera

Yo soy un Hombre sincero
De donde crece la palma
Yo soy un Hombre sincero
De donde crece la palma
Y antes de morrir me quiero
Echar mis versos del alma

Guantanamera
I care a lot for the lady
My inspiration
Guantanamos fairest lady
Guantanamera
I care a lot for the lady
My inspiration
Guantanamos fairest lady

I'm just a man who is trying
To do some good before dying
To ask each man and his brother
To bear no ill toward each other
This life will never be hollow
To those who listen and follow

Guantanamera
I care a lot for the lady
My inspiration
Guantanamos fairest lady
Guantanamera
I care a lot for the lady
My inspiration
Guantanamos fairest lady

Palavras de Dom Platonico
Video: dançando a rumba
Canção: tema cubano original de Joseito Fernandez de 1929

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Por decoro

Quando me esperas, palpitando amores,
E os grossos lábios úmidos me estendes,
E do teu corpo cálido desprendes
Desconhecido olor de estranhas flores;

Quando, toda suspiros e fervores,
Nesta prisão de músculos te prendes,
E aos meus beijos de sátiro te rendes,
Furtando as rosas as púrpureas cores;

Os olhos teus, inexpressivamente,
Entrefechados, lânguidos, tranquilos,
Olham, meu doce amor, de tal maneira,

Que, se olhassem assim, publicamente,
Deveria, perdoa-me, cobri-los
Uma discreta folha de parreira.
Poema de Arthue Azevedo do livro: "Livro do Corpo", L&PM, 1999
Fotografia de Vask

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O tempo

O tempo é muito lento, para os que esperam.
Muito rápido, para os que têm medo.
Muito longo, para os que lamentam.
Muito curto, para os que festejam.
Mas para os que amam, o tempo é eterno.

Poema de Henry van Dyke
"Time is too slow for those who wait,
too swift for those who fear,
too long for those who grieve,
too short for those who rejoice,
but for those who love, time is eternity."

Fotografia de Aipeija

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Amanhecer nos teus olhos

O encanto deste amanhecer

Luminoso, do romper do dia,
Trouxe, a ambos, um novo querer:
Continuar sonhando alegria.

Gozo e alegria, renovados
A cada beijo, íntimo desvelo,
Nas carícias de apaixonados,
Teus olhos e o teu cabelo...

Quero ter bem viva a tua imagem
E a felicidade transparente
Que hoje emergiu dos olhos teus!

Quero ter-te viva, não miragem,
Ter a tua Alma em mim, presente,
Ter, sempre, os teus Olhos com os meus.






Poema de Sol da Esteva
Fotografia de Abok



segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Não vale mais um dia que uma hora


Nao vale mais um dia que uma hora
Se um dia não disser isto que digo
Não há dia da vida em que eu não morra
Para ter uma hora só contigo

Ai se eu te amasse mais do que sabia
Ai se eu soubesse o que já sei agora
Não vale mais a vida do que um dia
Não vale mais um dia que uma hora

Por cada amor que passa nós morremos
Morremos desse amor enquanto dura
Só quando a vida passa e que sabemos
Se o amor é doença não tem cura

Não vale mais um dia que uma hora
Não vale mais a dor que a despedida
A hora em que tu te foste embora
Não cabe num dia da minha vida




Canção de António Zambujo no seu album "Quinto".


domingo, 21 de outubro de 2012

Amor como em casa

 
Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraído percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde num café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

 

Poema de Manuel António Pina, in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde", que faleceu esta semana.
Fotografia de Denisoul

sábado, 20 de outubro de 2012

A castidade com que abria as coxas


A castidade com que abria as coxas
e reluzia a sua flora brava.
Na mansuetude das ovelhas mochas,
e tão estrita, como se alargava.

Ah, coito, coito, morte de tão vida,

sepultura na grama, sem dizeres.
Em minha ardente substância esvaída,
eu não era ninguém e era mil seres

em mim ressuscitados. Era Adão,

primeiro gesto nu ante a primeira
negritude de corpo feminino.

Roupa e tempo jaziam pelo chão.

E nem restava mais o mundo, à beira
dessa moita orvalhada, nem destino.









Poema de Carlos Drummond de Andrade, in 'O Amor Natural'
F
otografia de Chapala Dmitry

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Nossos Corpos

Nossos corpos
se cruzam e descruzam
como serpentes
cálidas
se enroscam
e se apertam
atarracham
num crescendo
sem limite.

Há gemidos delirantes
há percussões arrítmicas
respirações ofegantes
empastadas em suor
até ao êxtase
e ao torpor.

Não há discurso
erótico
que resista
à mudez
desta nudez
tumultuosamente
sinfônica.



Poema de Noel Ferreira
Fotografia de Elena Kovaleva
 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Vontade de ti


Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,

seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.



Poema de Pablo Neruda
Fotografia de Henri Senders

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Cama e mesa

Eu quero ser sua canção,
Eu quero ser seu tom,
Me esfregar na sua boca
Ser o seu batom.

O sabonete que te alisa
Embaixo do chuveiro,
A toalha que desliza
No seu corpo inteiro.

Eu quero ser seu travesseiro
E ter a noite inteira,
Pra te beijar durante
O tempo que você dormir.

Eu quero ser o sol que entra
No seu quarto adentro,
Te acordar devagarinho,
Te fazer sorrir.

Quero estar na maciez
Do toque dos seus dedos
E entrar na intimidade
Desses seus segredos.

Quero ser a coisa boa,
Liberada ou proibida,
Tudo em sua vida.

Eu quero que você me dê
O que você quiser.
Quero te dar tudo
Que um homem dá
Pra uma mulher.

E além de todo esse carinho
Que você me faz,
Fico imaginando coisas,
Quero sempre mais.

Você é o doce
Que eu mais gosto,
Meu café completo,
A bebida preferida,
O prato predileto.

Eu como e bebo do melhor
E não tenho hora certa:
De manhã, de tarde,
À noite, não faço dieta.

Esse amor que alimenta
Minha fantasia,
É meu sonho, minha festa,
É minha alegria.

A comida mais gostosa,
O perfume e a bebida,
Tudo em minha vida.

Todo homem que sabe o que quer
Sabe dar e querer da mulher.
O melhor é fazer desse amor
O que come, o que bebe,
O que dá e recebe.

Mas o homem que sabe o que quer
E se apaixona por uma mulher,
Ele faz desse amor sua vida:
A comida, a bebida
Na justa medida.

O homem que sabe o que quer,
Sabe dar e querer da mulher.
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe,
O que dá e recebe.

Mas o homem que sabe o que quer,
Sabe dar e querer da mulher.
O melhor e fazer desse amor
O que come, o que bebe,
O que dá e recebe.

Mas o homem que sabe o que quer
E se apaixona por uma mulher,
Ele faz desse amor sua vida:
A comida, a bebida,
Na justa medida. 





Canção de Roberto Carlos e Erasmo Carlos 
Video da interpretação de Roberto Carlos e da atriz Dira Lopes no Especial de Roberto Carlos em 2009. O tema começa no min 2.30.


segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Na Penumbra


Raiava, ao longe, em fogo a lua nova,
Lembras-te?... apenas reluzia a medo,
Na escuridão crepuscular da alcova
O diamante que ardia-te no dedo...

Nesse ambiente tépido, enervante,
Os meus desejos quentes, irritados,
Circulavam-te a carne palpitante,
Como um bando de lobos esfaimados...

Como que estava sobre nós suspensa
A pomba da volúpia; a treva densa
Do teu olhar tinha tamanho brilho!

E os teus seios que as roupas comprimiam,
Tanto sob elas, túmidos, batiam,
Que estalavam-te o flácido espartilho!
 


Poema de Raimundo Correia
Fotografia de AC

domingo, 14 de outubro de 2012

Noite

Encontraram-no caído
Ao fundo daquela rua;
Chamaram-no pelo nome, era eu!
- O poeta andava à lua
E adormeceu...

Foi o que disse e jurou

Pela sua salvação
A perdida
Que viu tudo da janela...

E o guarda soube por Ela,

Pelo pranto que chorava,
Quem era na minha vida
O guarda que me guardava...

- Andar à lua é proibido...

Mas Ela pagou a lei
Por um beijo que lhe dei
Antes ou depois de ter caído,
Nem eu sei...



Poema de Miguel Torga
Fotografia de Henri Senders
 

sábado, 13 de outubro de 2012

Flerte



Como rio que não se detém,
Frente a obstáculos...

Tua essência transbordou-me,
O pequeno frasco.

Lúbrico perfume que o ar embriagou.
Entre sorrisos, olhares copulavam.

Almas líricas deleitavam-se,
Num beijo que aquecia o corpo,
E o coração disparava desenfreado.

Paixão, Desejo sem palavras.

Ao redor, passos dormente.

Um mundo inerte...

Faces de estátua.



Poema de Márcia Costa
Fotografia de Andrey V

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Jardins Proibidos

Quando amanheces, logo no ar,
Se agita a luz sem querer,
E mesmo o dia, vem devagar,
Para te ver.
E já rendido, ver-te chegar,
Desse outro mundo só teu,
Onde eu queria, entrar um dia,
P'ra me perder.

P'ra me perder, nesses recantos
Onde tu andas, sozinha sem mim,
Ardo em ciúme, desse jardim,
Onde só vai quem tu quiseres,
Onde és senhora do tempo sem fim,
Por minha cruz, jóia de luz,
Entre as mulheres.

Quebra-se o tempo, em teu olhar,
Nesse gesto sem pudor,
Rasga-se o céu, e lá vou eu,
P'ra me perder.

P'ra me perder, nesses recantos
Onde tu andas, sozinha sem mim,
Ardo em ciúme, desse jardim,
Onde só vai quem tu quiseres,
Onde és senhora do tempo sem fim,
Por minha cruz, jóia de luz

P'ra me perder, nesses recantos
Onde tu andas, sozinha sem mim,
Ardo em ciúme, desse jardim,
Onde só vai quem tu quiseres,
Onde és senhora do tempo sem fim,
Por minha cruz, jóia de luz
Entre as mulheres



Tema de Paulo Gonzo e Olavo Bilac

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Soneto de Amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma...Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!
 


Poema de José Régio
Fotografia de Agris Klestrovs

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Ilha


Deitada és uma ilha e raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas
com tão prometedoras enseadas
um só bosque no meio florescente

promontórios a pique e de repente
na luz de duas gémeas madrugadas
o fulgor das colinas acordadas
o pasmo da planície adolescente

Deitada és uma ilha Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias
Amiga amor amante amada eu morro
da vida que me dás todos os dias 



Poema de David Mourão-Ferreira
Fotografia de Alexander Andreev

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Gota de água

Gota de água
eu
em tua boca

A matar-te a sede
de solidão incerta

O que mais serei eu
se apenas essa chuva

Gota aprisionada
que logo se liberta



Poema de Maria Teresa Horta em "As palavras do corpo"
Fotografia de Lelyak

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Nua


Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios
liberto os mistérios
sem perder o encantodo prazer.
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua.
 
 
 
Poema de Isabel Machado
Fotografia de Denisoul

domingo, 7 de outubro de 2012

I'm your man - Leonard Cohen

If you want a lover
I'll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I'll wear a mask for you
If you want a partner
Take my hand
Or if you want to strike me down in anger
Here I stand
I'm your man
If you want a boxer
I will step into the ring for you
And if you want a doctor
I'll examine every inch of you
If you want a driver
Climb inside
Or if you want to take me for a ride
You know you can
I'm your man
Ah, the moon's too bright
The chain's too tight
The beast won't go to sleep
I've been running through these promises to you
That I made and I could not keep
Ah but a man never got a woman back
Not by begging on his knees
Or I'd crawl to you baby
And I'd fall at your feet
And I'd howl at your beauty
Like a dog in heat
And I'd claw at your heart
And I'd tear at your sheet
I'd say please, please
I'm your man

And if you've got to sleep
A moment on the road
I will steer for you
And if you want to work the street alone
I'll disappear for you
If you want a father for your child
Or only want to walk with me a while
Across the sand
I'm your man

If you want a lover
I'll do anything you ask me to
And if you want another kind of love
I'll wear a mask for you

"I'm your man" composta por Leonard Cohen e editada no album "I'm your man" de 1988.
Video ao vivo em Londres em 2009.




sábado, 6 de outubro de 2012

Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo


Não vou pôr-te flores de laranjeira no cabelo

nem fazer explodir a madrugada nos teus olhos.

Eu quero apenas amar-te lentamente

como se todo o tempo fosse nosso

como se todo o tempo fosse pouco

como se nem sequer houvesse tempo.

Soltar os teus seios.

Despir as tuas ancas.

Apunhalar de amor o teu ventre.



Poema de Joaquim Pessoa
Fotografia de F Man

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Cavalo à solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve breve
instante da loucura.

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa.

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo.

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo.

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura.

Música de Fernando Tordo
Poema de Ary dos Santos
No video: interpretação de Viviane no album "Rua da Saudade"





quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Contágio



Feroz em nós uma paixão de novo
nos ameaça
nos faz vibrar, o sangue flui
sobe no rosto
de repente a gente fica
disposto a tudo
e tudo é pouco
não importa que essa loucura
não tenha alívio
a gente muda, respira de outro jeito
arfa no peito sempre uma pressa
sempre aquela vontade
sozinha fico metade
depressa me abraça, uma saudade
que dói, uma coisa que arrebenta
e não se aguenta mais.
A gente se entrega ao risco
arrisca a pele, perde o rumo
no prazer dessa desorientação
A gente quer explodir e não pode
quer se conter e não sabe
quer se livrar do jugo da paixão
mas não quer que ela acabe.
 
 
 
Poema de Bruna Lombardi em "O perigo do dragão"
Fotografia de autor desconhecido 

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Apetece-me tocar-te

Apetece-me tocar-te
Como se fosses de música,
Instrumento de mil cordas
Com sons, e cantos e ecos
Dos toques que me recordas

Apetece-me dançar-te
Em passos dados a dois,
Sinto o som que me impele
De cada beijo memória
Que fica na tua pele

Apetece-me ouvir-te
Nesse grito sussurrado,
No acorde clandestino
Que ondula no salão
Como um tango argentino

Apetece-me apertar-te
Até ouvir dos teu lábios
Desprendido da garganta
O gemido que se solta
A música que me encanta

Apetece-me tomar-te
Em notas de improviso
Compasso louco crescente
Tomar para mim teu corpo
Tomar-te na minha mente



Palavras de Dom Platonico
Fotografia de Zazu



terça-feira, 2 de outubro de 2012

Não posso adiar o amor para outro século


Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indensa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração





Poema de António Ramos Rosa
Fotografia de Popoff

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

No leito estreito da redondilha

Teu corpo claro e perfeito,
Teu corpo de maravilha,
Quero possuí-lo no leito 
Estreita da redondilha
Teu corpo é tudo o que cheira…
Rosa… flor de laranjeira…

Teu corpo, branco e macio,
É como um véu de noivado…
Teu corpo é pomo doirado…
Rosal queimado do estio,
Desfalecido em perfume…
Teu corpo é a brasa do lume…

Teu corpo é chama e flameja
Como à tarde os horizontes…
É puro como nas fontes
A água clara que serpeja, 
Quem em antigas se derrama…
Volúpia da água e da chama… 

A todo o momento o vejo…
Teu corpo… a única ilha
No oceano do meu desejo… 
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira…
Rosa, flor de laranjeira…


Poema de António Bandeira
Fotografia de Chapala Dmitry