sábado, 27 de abril de 2013

Que seja eu



Que seja eu,

A brisa que te afaga
O vinho que te embriaga
O fogo que te abrasa

Que seja eu,

O lábio para o teu beijo
Alimento do teu desejo
Teu amor sem medo, sem pejo

Que seja eu.




Poema de Gabriel Peers
Fotografia de Mike Darzi


terça-feira, 23 de abril de 2013

Nós estamos aqui

... Nós estamos aqui para arder pelo nosso corpo completo.
Tu e eu, leões estirados ao sol,
harpa para os nossos dedos quentes,
poema numa sala de lâminas.

Nós estamos aqui para fugir, nós estamos aqui para chegar
de vez.






Palavras de Vasco Gato
Fotografia de Danilov


domingo, 21 de abril de 2013

Sistema de privilégios


E se de repente defendesse o latifúndio
só para garantir o teu corpo inteiro?
um sistema de privilégios
em que esteja incluída a curva do esterno
a curva que arqueja
quando vimos do ventre

Subo? Não subo?
Ali a meus pés
a meus pés e em minhas mãos
a região soberba das mamas
por que não eriças desta vez os mamilos?

Não falas, não gemes - esperas apenas que eu passe
Sigo o método dos ladrões
e avanço como em propriedade minha
não espero, não me detenho
cansei-me do desejo adiado

a vida é à semana
e teu corpo a festa e o feriado






Poema de João Habitualmente
Fotografia de Vanzetti

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Jogo


Eu, sabendo que te amo,
e como as coisas do amor são difíceis,
preparo em silêncio a mesa
do jogo, estendo as peças
sobre o tabuleiro, disponho os lugares
necessários para que tudo
comece: as cadeiras
uma em frente da outra, embora saiba
que as mãos não se podem tocar,
e que para além das dificuldades,
hesitações, recuos
ou avanços possíveis, só os olhos
transportam, talvez, uma hipótese
de entendimento. É então que chegas,
e como se um vento do norte
entrasse por uma janela aberta,
o jogo inteiro voa pelos ares,
o frio enche-te os olhos de lágrimas,
e empurras-me para dentro, onde
o fogo consome o que resta
do nosso quebra-cabeças.





Poema de Nuno Júdice em "A Fonte da Vida" 
Fotografia de Andrew Lucas

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Inconfesso Desejo



Queria ter coragem
Para falar deste segredo
Queria poder declarar ao mundo
Este amor
Não me falta vontade
Não me falta desejo
Você é minha vontade
Meu maior desejo

Queria poder gritar
Esta loucura saudável
Que é estar em teus braços
Perdido pelos teus beijos
Sentindo-me louco de desejo
Queria recitar versos

Cantar aos quatros ventos
As palavras que brotam
Você é a inspiração
Minha motivação
Queria falar dos sonhos

Dizer os meus secretos desejos
Que é largar tudo
Para viver com você
Este inconfesso desejo




Poema de Carlos Drummond de Andrade
Fotografia de Alexei Nikolaev

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Contigo




Sou eu, sou eu que não durmo,

Contigo nos sentidos.




Palavras de Eugénio de Andrade
Fotografia de Martin Vitek


sexta-feira, 12 de abril de 2013

Escondo-me atrás de coisas simples


Escondo-me atrás de coisas simples,
para que me encontres.
Se não me encontrares, encontrarás as coisas,
tocarás o que minha mão já tocou,
os traços juntar-se-ão de nossas mãos,
uma na outra.




Poema de Yannis Ritsos
Fotografia de Adisabeba

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Os teus lábios



Inclina para mim os teus lábios
e que ao sair da minha boca
a minha alma volte a entrar dentro de ti.





Palavras de Denis Diderot
Fotografia de Yan McLine

terça-feira, 9 de abril de 2013

Fim e Recomeço


Não pode ser luar esta brancura

Nem aves batem asas sobre o leito

Neste quebrar de corpos fatigados

Será em mim o sangue que murmura

Em ti serão as luas do teu peito

Nos jogos do amor recomeçados




Poema de José Saramago
Fotografia de Lin Koln


domingo, 7 de abril de 2013

Fogo


De que valem o certo e o regular?
E o chão liso, um tapete pra andar?
Não vou a passo - antes quero correr

És o fósforo e a chama
se quisesse fugia - prefiro arder





Poema de João Habitualmente em "Os animais antigos"
Fotografia de Lev Savitskiy

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Teus seios


Teus seios... são as fontes onde os loucos,
saciar a sede, tentam, da paixão,
- sede que mata e que sufoca aos poucos...

Teus seios!... Nada existe que os encarne!...
- São divinos pecados da Criação,
são dois poemas de amor feitos de carne!...





Poema de JG de Araujo Jorge em "Os Mais Belos Poemas Que O Amor Inspirou"
Vol. I - 1a edição 1965 
Fotografia de Paolo Bascheri

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Despem-se diante dos olhos


despem-se diante dos olhos dois corpos de luz
mas a inclinação da luz é rasa
é a fricção dos corpos que ilumina a biblioteca
dos livros perde-se a cor da antiguidade
dos sorrisos inverte-se a obliquidade das palavras
e em silêncio inveja-se a luz produzida
as página e os corpos tocam-se de perto
por desejo, imagino eu que leio só.



 



Palavras de André Tomé
Fotografia de Yanis

terça-feira, 2 de abril de 2013

Nem sempre

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada de sua órbita viva. 

- Porém, tu sempre me incendeias.










Palavras de Herberto Helder
Fotografia de Robert Bagnino Lubanski

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Calam-se as palavras


Calam-se as palavras
Quando num beijo,
A minha boca, a tua encontra.
Esquecem-se as palavras
Quando num abraço,
O meu corpo, tornas o teu.
Como é simples o silêncio
Dos gestos que trocamos.



Poema de Encandescente
Fotografia de Artem Yankovsky