sábado, 17 de setembro de 2016

Poema pena

Como pássaro em vôo
seguindo o vento
você se foi numa tarde fria.

"Era só um poema"
[pensei]

Distraída, olhando o céu
não percebi:

pousou em meu colo uma pena.




Poema de Vonzodas
Fotografia de Uvgeniy Potanin
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Palavra esquecida

sinto que ainda ficou uma
palavra minha esquecida na
tua boca e que
vais voltar
para
a
devolver



Poema de Alice Vieira
Fotografia de David Nichols



sábado, 10 de setembro de 2016

La Noche

La Noche

No consigo dormir. 
Tengo una mujer atravesada entre los párpados. 
Si pudiera, le diría que se vaya; pero tengo una mujer atravesada en la garganta.



poema de Eduardo Galeano
fotografia de Hataiiia Hataiiia

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Apeteces-me




Quem dera
Que nos saltos, te ouvisse
Que com a luz, te pintasse
Que nos pulsos, te tomasse
Que o metal, te marcasse

Quem dera
Que a tua cor, eu bebesse
O teu brilho,  eu provasse
Que no chão, te tombasse
E o teu ar, todo roubasse

Quem dera
ter-te
entregue
minha
um dia



Palavras de Dom Platonico
Imagem de autor desconhecido

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Beijo Guardado


Beijo guardado

Iva Tai(poetisa e artista visual/ Manaus-AM)


É um segredo de mulher.
E em superfície rosada
se oculta.

Entreaberto.

De um sabor agridoce,
em fruto esperado.

Num roçar
de veludo líquido.

Onde um fluido sorrir
se esconde.

Algo a se consumir
lento ou sôfrego.

Num rodopiar
de degustação em sumo.

Tom sobre tom.

Onde falta ar.
Mas a morte não chega...


Poema de Iva Tai
Imagem de Iva Tai

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Saudade


Saudade

Magoa-me a saudade
do sobressalto dos corpos
ferindo-se de ternura
dói-me a distante lembrança
do teu vestido
caindo aos nossos pés

Magoa-me a saudade
do tempo em que te habitava
como o sal ocupa o mar
como a luz recolhendo-se
nas pupilas desatentas

Seja eu de novo tua sombra, teu desejo
tua noite sem remédio
tua virtude, tua carência
eu
que longe de ti sou fraco
eu
que já fui água, seiva vegetal
sou agora gota trémula, raiz exposta

Traz
de novo, meu amor,
a transparência da água
dá ocupação à minha ternura vadia
mergulha os teus dedos
no feitiço do meu peito
e espanta na gruta funda de mim
os animais que atormentam o meu sono



Mia Couto, em 'Raiz de Orvalho'
Foto de autor desconhecido

quinta-feira, 11 de junho de 2015

O que temos





Deixei contigo o meu amor,
música de açúcar a meio da tarde,
um botão de vestido por apertar,
e o da vida por desapertar,
a flor que secou nas páginas de um livro,
tantas palavras por dizer
e a pressa de chegar,
com o azul do céu à saída.
por entre cafés fechados e um por abrir.

Mas trouxe comigo o teu amor,
os murmúrios que o dizem quando os lembro,
a surpresa de um brilho no olhar,
brinco perdido em secreto campo,
o remorso de partir ao chegar,
e tudo descobrir de cada vez,
mesmo que seja igual ao que vês
neste caminho por encontrar
em que só tu me consegues guiar.

Por isso tenho tudo o que preciso
mesmo que nada nos seja dado;
e basta-me lembrar o teu sorriso
para te sentir ao meu lado.

Nuno Júdice, in O Estado dos Campos (Dom Quixote, 2003)