quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Tatuagem - Chico Buarque



Quero ficar no teu corpo
Feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Prá seguir viagem
Quando a noite vem...

E também pra me perpetuar
Em tua escrava
Que você pega, esfrega
Nega, mas não lava...

Quero brincar no teu corpo
Feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem...

E nos músculos exaustos
Do teu braço
Repousar frouxa, murcha
Farta, morta de cansaço...

Quero pesar feito cruz
Nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem...

Quero ser a cicatriz
Risonha e corrosiva
Marcada a frio
Ferro e fogo
Em carne viva...

Corações de mãe, arpões
Sereias e serpentes
Que te rabiscam
O corpo todo
Mas não sentes...




Música de Chico Buarque em colaboração com Ruy Guerra. "Tatuagem" é do disco "Calabar" ou "Chico Canta", lançado pela gravadora Philips em 1973.



terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Chamamento


Se te pareço noturna e imperfeita 
Olha-me de novo. Porque esta noite 
Olhei-me a mim, como se tu me olhasses. 
E era como se a água 
Desejasse 
Escapar de sua casa que é o rio
E deslizando apenas, nem tocar a margem.
Te olhei. E há tanto tempo 
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água mais fraterno
Se estenda sobre o meu. Pastor e nauta
Olha-me de novo. Com menos altivez.
E mais atento.



Poema de Hilda Hist
Fotografia de Arkadiy Kurta

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Prelúdio 2



Ó meu amor
faz-me ouvir, apenas.
Sê tu a minha boca.




Poema de Maria de Lourdes Hortas em Relógio de Água, edições Pirata, Recife, 1985
Fotografia de Alt Edward

sábado, 26 de janeiro de 2013

Chegas com gaivotas

Chegas com gaivotas
veleiro contra o vento
e tudo o mais sobra.


Cerro os olhos:
dentro das pálpebras
o desenho do teu rosto.

Teu corpo,
um aceno às aves
que alto voam.

Sumptuosa coberta de seda
contra a minha pele, a tua.

Com a sombra das árvores
confunde-se a seiva
e a sede que nos uniu.


Ficaram por colher
em tuas mãos as cores
exultantes do Verão.

Lá fora a minha solidão
vagueia com a tua ausência.

Levo a mão ao rosto
para enxugar uma lágrima tua.

No teu rosto
leio com ternura a ruína
que ameaçou o meu.




Poema de Flor Campino (Tomar, 1943)-  Escritora e pintora
Fotografia de Alt Edward

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Prelúdio


Porque sou da terra
preciso da chuva
e para ser verde
de ti tenho sede 





Poema de Maria de Lourdes Hortas em Relógio de Água, edições Pirata, Recife, 1985
Fotografia de Anna-Shakti-Shakina

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Telepatia

Telepatia
Silêncio calma
Feitiçaria
Da tua alma

Passo a passo
Sem ter medo
Abrimos, soltámos
O nosso segredo

E a sorrir
Devorámos o mundo
Num abraço
Tão profundo


Telepatia
Sem contratempo
Deixei-te um dia
Num desalento
E eu sonhava
Existia
Pra sempre pra sempre
Foi pura poesia


Sem pensar
Não vi-te, passavas
Pelo meu corpo
Não ficavas


Telepatia
(falado)
Minha querida eu soube sempre
Eu já sabia que te ia conhecer
Minha querida era fatal
Fiz tanta força
Para isto acontecer
És tão bonita meu amor
Eu não te queria perder
Já sei, adivinho
O que estás a pensar
Vim do outro lado do mar
Talvez um dia volte, não sei
Mas penso em ti, acredita
Adivinhei-te em segundos
Quando jurámos eternidade

E a sorrir
Devorámos o mundo
Num abraço
Tão profundo

Telepatia
Silêncio calma
Feitiçaria
Da tua alma




Canção de Ana Zanatti / Nuno Rodrigues / Lola
Video interpretado por Lara Li ao vivo no programa "Deixem passas a música" da RTP em 1988

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um Campo Batido pela Brisa



A tua nudez inquieta-me.
Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo. 

A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.
Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez. 

Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança. 

E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência. 

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
iluminado, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.
Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces. 




Poema de Fernando Assis Pacheco em A Musa Irregular, Lisboa: Assírio & Alvim, 2006
Fotografia de Alt Edward 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Não basta!


Não.
Não basta saber que existes.
É como estar sedenta
E saber que existe água
É como estar faminta
E saber que há pão
É doer, definhar
E saber que existe um bálsamo.
Não.
Não basta saber que existes
É preciso que estejas




Poema de Encandescente
Fotografia de Aleksandr Slinky

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Café da Manhã


Amanhã de manhã
Vou pedir o café pra nós dois
Te fazer um carinho e depois
Te envolver em meus braços
E em meus abraços
Na desordem do quarto esperar
Lentamente você despertar
E te amar na manhã

Amanhã de manhã
Nossa chama outra vez tão acesa
E o café esfriando na mesa
Esquecemos de tudo
Sem me importar
Com o tempo correndo lá fora
Amanhã nosso amor não tem hora
Vou ficar por aqui.

Pensando bem
Amanhã eu nem vou trabalhar
E além do mais
Temos tantas razões pra ficar

Amanhã de manhã
Eu não quero nenhum compromisso
Tanto tempo esperamos por isso
Desfrutemos de tudo
Quando mais tarde
Nos lembrarmos de abrir a cortina
Já é noite e o dia termina
Vou pedir o jantar



Música e letra de Roberto Carlos
Tema "Café da manhã" de Roberto Carlos

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O dorso sob a luz o ar os dedos


O dorso sob a luz o ar os dedos
a pele intensa de suor e fogo
o mar a primavera rompe o dorso
nocturno sob o fogo a lama o sol

O dorso sob
um beijo a electricidade  fria da noite
lábios subindo a encontrar o corpo
suor e água pó montanhas altas

humedecendo o dorso
o sentido da carne o frio
o rio aberto
 

vector
o dorso o olhar o fogo
o dorso todo humedecendo o beijo.





Poema de Gastão Cruz em «Poemas Reunidos», Hematoma
Lisboa: Dom Quixote, 1999

Fotografia de Leszek

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Palavras



Palavras que se dizem ao ouvido
quando nos queima a febre do desejo
e só ganham sentido
se sairem dos lábios como um beijo.

Palavras murmuradas no calor
da mútua entrega
a deixar claro que o amor
nunca sossega.

Palavras revestidas de veludo
para afagar a vida
e que no meio da corrida
são elas próprias quase tudo.




Poema de Torquato da Luz
Fotografia de Leszek

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

És Tu


Acontece poesia em ti
sempre que olhas,
afirmando uma vida pulsante
magnífica
como
o cintilar das Estrelas no céu,
o resplendor brilhante do Sol
nos teus doces
e meigos olhos.

Acontece poesia em ti
sempre que ris,
criando umas curvas no rosto
sensuais
como
os campos de searas ao vento,
as ondas nas águas de um lago
ao sabor da quente
e harmoniosa aragem do Verão.

Acontece poesia em ti
sempre que andas,
alimentando o nascer de sentimentos
sinceros
como
o delicado desabrochar de uma flor,
o despontar do amanhecer da vida
no enternecido ser
do meu coração.

Assim,
quando
eternamente te penso,
te sinto,
te vivo,
por fim
acontece também
poesia em mim.





Poema de Vicente Ferreira da Silva em "30 Mensagens de Amor e Uma Recordação"
Ver o blog do autor: "Do Inatingível e outros Cosmos"

Fotografia de Jean-François Jonvelle em "Mistress"


sábado, 12 de janeiro de 2013

Plena Mulher



Plena mulher, maçã carnal, lua quente,
espesso aroma de algas, lodo e luz pisados,
que obscura claridade se abre entre tuas colunas?
que antiga noite o homem toca com seus sentidos?

Ai, amar é uma viagem com água e com estrelas,
com ar opresso e bruscas tempestades de farinha:
amar é um combate de relâmpagos
e dois corpos por um so mel derrotados.

Beijo a beijo percorro teu pequeno infinito,
tuas margens, teus rios, teus povoados pequenos,
e o fogo genital transformado em delícia

corre pelos tênues caminhos do sangue
até precipitar-se como um cravo noturno,
até ser e não ser senão na sombra de um raio.



Poema de Pablo Neruda no livro "Cem Sonetos de Amor"
Fotografia de Ellen von Unwerth

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Um Amor

Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. Depois, na rua,
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação.








Nuno Júdice, in "A Partilha dos Mitos"
Fotografia de Fazisi