quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Corpo de Mulher...



Corpo de mulher, brancas colinas, brancas coxas,
te fazem parecer o mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo de camponês selvagem te escava
e faz saltar o filho do fundo dessa terra.

Fui só como um túnel. De mim foram-se os pássaros
e em mim a noite entrava com a sua invasão poderosa.
Para sobreviver, forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.

Porém, chega a hora da vingança, e amo-te.
Corpo de pele e de musgo, de leite ávido e firme.
Ah os vasos do peito! Ah os olhos da ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!

Corpo da minha mulher, continuarás na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limites, meu caminho indeciso!
Escuros sulcos onde a sede eterna segue,
e segue a fadiga, e esta dor infinita.


Pablo Neruda, in "Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada" 1924
Foto de Hataiiia Hataiia em Photo.net

Sem comentários:

Enviar um comentário