domingo, 21 de julho de 2013

O amor, Meu amor




Nosso amor é impuro 
 

como impura é a luz e a água 
 

e tudo quanto nasce 
 

e vive além do tempo. 
 

Minhas pernas são água, 
 

as tuas são luz 
 

e dão a volta ao universo 
 

quando se enlaçam 
 

até se tornarem deserto e escuro. 
E eu sofro de te abraçar 
 

depois de te abraçar para não sofrer. 
 


E toco-te 
 

para deixares de ter corpo 
 

e o meu corpo nasce 
 

quando se extingue no teu. 


E respiro em ti 
 

para me sufocar 
 

e espreito em tua claridade 
 

para me cegar, 
 

meu Sol vertido em Lua, 
 

minha noite alvorecida. 

Tu me bebes 

e eu me converto na tua sede. 
 

Meus lábios mordem, 
 

meus dentes beijam, 
 

minha pele te veste 
 

e ficas ainda mais despida. 

Pudesse eu ser tu 

E em tua saudade ser a minha própria espera. 

Mas eu deito-me em teu leito

Quando apenas queria dormir em ti. 
 

E sonho-te 
 

Quando ansiava ser um sonho teu. 
 


E levito, voo de semente, 
 

para em mim mesmo te plantar 
 

menos que flor: simples perfume, 
 

lembrança de pétala sem chão onde tombar. 

Teus olhos inundando os meus 
 

e a minha vida, já sem leito, 
 

vai galgando margens 
 

até tudo ser mar. 
 

Esse mar que só há depois do mar. 





Poema de Mia Couto
Fotografia de Vitaliy Lining







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